Da Batalha Aeroterrestre à Guerra Multidomínio, a evolução que mudou o que significa lutar
Da Batalha Aeroterrestre à Guerra Multidomínio, a evolução que mudou o que significa lutar
 Amadeu Robalinho       2026-08-14 13:11:01

Da Batalha Aeroterrestre à Guerra Multidomínio, a evolução que mudou o que significa lutar

Por Amadeu Robalinho Dantas da Gama Neto

Olhe para aquelas duas publicações antigas do Estado-Maior do Exército, de 1996 e 1997. Elas guardam mais do que pó de arquivo e papel amarelado. Guardam um instante em que o pensamento militar brasileiro deu um salto, e percebeu que a guerra não cabia mais naquelas caixinhas de sempre.

Em 1996, com a IP 100-1, a chamada *Doutrina Delta*, o Exército Brasileiro decidiu que não podíamos continuar pensando a batalha como uma linha reta, um enfrentamento frontal, um soldado de frente para o outro. Inspirados pelo que o mundo viu na Guerra do Golfo de 1991, passamos a falar em manobra, profundidade, simultaneidade, velocidade. Combate não linear. Operações noturnas. Blindados e mecanizados decidindo o jogo. Era ousado para a época, e, confesso, ainda me pego admirado ao reler aqueles conceitos. Estávamos tentando, de verdade, nos preparar para uma guerra convencional de alta intensidade.

AirLand Battle, quando a profundidade virou o jogo

Mas essa história não começa aqui. Antes de nós, os americanos já haviam revirado tudo de cabeça para baixo com o conceito de *AirLand Battle*, gestado no calor da Guerra Fria.

Pense comigo: por séculos, a batalha era uma espécie de cabo de guerra. Você empurrava na frente, o outro empurrava de volta. O AirLand Battle quebrou isso. A ideia era simples, e por isso mesmo genial: não adianta só atacar o que está na sua frente. É preciso desmontar o sistema inteiro do adversário. Reservas, comando, logística, artilharia, comunicações, infraestrutura. Tudo, ao mesmo tempo. A batalha deixou de ser uma sucessão de choques e virou uma disputa pela arquitetura operacional do inimigo.

A Guerra do Golfo mostrou isso em cores vivas. Poder aéreo, blindados, inteligência, guerra eletrônica, logística e comando e controle funcionando como uma orquestra. A Doutrina Delta tentou trazer esse espírito para o Brasil, mas aqui vem o ponto que nunca deixou de me incomodar: *conceitos a gente copia, capacidade, não.*

Podíamos importar as ideias. Mas não podíamos importar a base industrial, a tecnologia, a cadeia logística, o dinheiro que sustentava o modelo americano. E é aí que a conversa deixa de ser puramente militar e vira uma conversa sobre soberania.

Da Delta ao multidomínio, a fronteira não parou de se mover

A Doutrina Delta não duraria para sempre, e nem deveria. Em 2014, foi formalmente substituída pela Doutrina Militar Terrestre. Veio depois o conceito de Operações no Amplo Espectro. Mas o DNA permaneceu: integração, velocidade, profundidade, iniciativa, sincronização de efeitos. Apenas evoluiu.

Do outro lado do Atlântico, o Exército dos Estados Unidos levou a ideia a outro patamar com as *Multi-Domain Operations (MDO)*. O atual FM 3-0, Operations, trata o combate multidomínio como o conceito central. E o salto é brutal.

No AirLand Battle, o palco era terra e ar. No MDO, o palco é tudo: *terra, mar, ar, espaço, ciberespaço, domínio informacional e a dimensão humana.* O campo de batalha não é mais um território no mapa. Virou uma rede de sistemas interdependentes, e quem entender melhor essa rede leva vantagem.

 Cuidado com o engano, multidomínio não é só "todo mundo junto"

Aqui preciso parar e ser direto: há um erro comum em achar que operação multidomínio é simplesmente juntar Exército, Marinha, Força Aérea, tropas cibernéticas e satélites no mesmo teatro de operações.

Não é.

O ponto-chave é *convergência de efeitos*. Um ataque eletrônico abre a janela para um raid aéreo. Uma ação cibernética desorganiza o comando adversário. Satélites dão consciência situacional. A Marinha controla linhas de comunicação marítimas. A aviação interdita a logística. A infantaria explora a brecha. Inteligência aponta o centro de gravidade. E a indústria, sim, a indústria, precisa sustentar tudo isso em ritmo de guerra.

É a guerra transformada em *sistema de sistemas*. E o Exército americano define assim mesmo: emprego combinado de capacidades para criar e explorar vantagens relativas.

 A OTAN já pensa assim, e já chamou todo mundo para a conversa

Não é só uma invenção americana. A OTAN vem construindo sua própria arquitetura multidomínio, integrando terra, mar, ar, espaço e ciberespaço. Em 2024, a Aliança realizou uma conferência inteira dedicada ao tema, e o mais interessante é quem estava na sala: não apenas generais, mas representantes de governos, da indústria, da academia, de organizações internacionais.

Isso revela algo que demoramos a aceitar: *a capacidade militar não nasce só nos quartéis.* Nasce nas universidades, nos laboratórios, nas startups, nas siderúrgicas, nos estaleiros, nas fábricas de motores, nas redes de telecomunicações, nos centros de semicondutores. A estratégia de transformação digital da OTAN é explícita: interoperabilidade entre domínios e integração com a sociedade civil.

Tradução simples: a base industrial e tecnológica virou componente direto da defesa.

 Soberania, a lição que dói, mas ensina

É aqui que o debate aperta, e é aqui que o Brasil precisa parar de olhar só para o espelho dos outros e começar a olhar para dentro.

Um país pode ter soldados excelentes, oficiais brilhantes, equipamentos modernos. Mas se não consegue *produzir, manter, atualizar e substituir* seus próprios sistemas críticos, sua autonomia é ilusão.

Um tanque sem logística é um trator enfeitado. Um navio sem munição é um casco flutuando. Um avião sem peças é sucata com asas. Um sistema de comando sem satélite próprio, sem comunicação segura, sem infraestrutura digital nacional, é uma vulnerabilidade ambulante.

Depender de tecnologia estrangeira crítica é aceitar uma *soberania condicionada*, e isso não se resolve comprando mais um lote de mísseis. Resolve-se dominando o ciclo tecnológico.

Soberania militar começa na engenharia. Na fábrica. No laboratório. Na usina. Na capacidade de fazer o chip, o sensor, o software, o motor, o casco do navio, o foguete, a turbina. E, talvez mais importante, na capacidade de *repor tudo isso em escala e em tempo de guerra.*

Guerra de alta intensidade come material, e só quem tem indústria sobrevive

Os conflitos recentes trouxeram de volta uma verdade que a Guerra Fria havia escondido: *guerra moderna consome material em escala industrial.* Munição, combustível, peças de reposição, drones, sensores, componentes eletrônicos, veículos, sistemas de defesa aérea, tudo precisa ser produzido, transportado, mantido, substituído.

Não existe combate em larga escala sem *reposição em larga escala*. A soberania industrial deixou de ser um tema de economista e virou questão de sobrevivência estratégica.

O mar também é domínio de soberania, e o Brasil esquece disso à própria custa

Para nós, essa discussão tem um peso extra. O Brasil é um país continental, com fronteiras terrestres imensas, costa gigantesca, Amazônia, infraestrutura energética espalhada e uma dependência brutal do comércio marítimo.

Não é preciso invadir o Brasil para nos paralisar. Basta interromper fluxos críticos no mar, petróleo, gás, minério, alimentos, fertilizantes, equipamentos industriais. Em uma crise séria, o oceano pode virar o campo de batalha decisivo sem que um único soldado pise em solo brasileiro.

A guerra multidomínio, para nós, precisa ser entendida como uma guerra pela *continuidade do Estado e da economia*. Não é só defender território, é garantir que o país continue funcionando.

Do campo de batalha ao sistema nacional de poder

Se eu tivesse que resumir a trajetória, seria esta:

*Doutrina convencional, AirLand Battle, Doutrina Delta, Operações no Amplo Espectro, Multi-Domain Operations*

Mas o que realmente mudou não foi o nome do conceito. Foi a natureza da competição. Deixamos de competir entre plataformas (tanque contra tanque, avião contra avião) e passamos a competir entre *sistemas nacionais inteiros.*

Quem decide mais rápido? Quem tem melhor inteligência? Quem controla seus dados? Quem domina suas comunicações? Quem tem energia segura? Quem produz munição em quantidade? Quem mantém cadeias logísticas funcionando? Quem substitui perdas sem pedir licença a outro país? Quem inova *durante* o conflito?

Esse é o verdadeiro significado do combate multidomínio.

 O Brasil não precisa copiar a OTAN, precisa se conhecer

A pergunta errada é: "Que doutrina estrangeira vamos adotar agora?"

A pergunta certa é: "Que capacidades precisamos construir para defender o Brasil no mundo como ele é, e não como gostaríamos que fosse?"*

A resposta passa por uma equação complexa, mas clara:

Defesa Nacional + Engenharia + Indústria + Ciência + Tecnologia + Energia + Logística + Inteligência + Poder Naval + Poder Aeroespacial + Ciberdefesa

A Doutrina Delta virou história. O AirLand Battle virou referência. O MDO é o presente, e talvez o futuro próximo. Mas o princípio que atravessa tudo é um só, e ele não envelhece:

> Uma nação que não domina as tecnologias essenciais à sua defesa acaba, inevitavelmente, dependendo da vontade tecnológica de terceiros.

Soberania não se mede só pela existência de Forças Armadas. Mede-se pela capacidade nacional de equipá-las, sustentá-las, atualizá-las e empregá-las com autonomia real.

A verdadeira fronteira do Brasil não está só na linha do mapa. Está nos estaleiros, nas fábricas, nos laboratórios, nas redes digitais, nas universidades, nas reservas energéticas, na engenharia que ainda precisamos formar.

Porque no século XXI, o campo de batalha é multidomínio.

E a soberania também precisa ser.

Nota histórica: a imagem mencionada registra a IP 100-1, Doutrina Delta (1ª edição, 1996) e o Manual de Campanha C 100-5, Operações (1997). A Doutrina Delta foi posteriormente substituída no processo natural de evolução doutrinária do Exército Brasileiro, seu valor hoje é histórico, conceitual e analítico, não operacional.

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