TULPAR, CV90 E A ENGENHARIA DE SOBERANIA
Por Amadeu Robalinho Dantas da Gama Neto
A escolha de uma nova plataforma blindada não pode ser reduzida a uma disputa de especificações técnicas
A possível oferta do TULPAR ao Exército Brasileiro, pela empresa turca Otokar, coloca diante do País uma questão que ultrapassa os limites de uma simples concorrência para aquisição de veículos blindados. Está em discussão a escolha de uma plataforma que poderá integrar a estrutura de combate do Exército durante décadas e, consequentemente, influenciar não apenas a capacidade operacional terrestre brasileira, mas também a trajetória da indústria nacional de defesa, a autonomia logística e a própria liberdade de decisão estratégica do Estado brasileiro.
É nesse ponto que se insere o conceito de Engenharia de Soberania e Estratégia, desenvolvido por Amadeu Robalinho, segundo o qual sistemas de defesa devem ser analisados não somente pelo desempenho imediato de seus equipamentos, mas pela capacidade que o País possui de dominar, sustentar, modificar, produzir e evoluir as tecnologias indispensáveis à sua defesa. Uma plataforma militar verdadeiramente estratégica não é apenas aquela que combate bem. É aquela que o Brasil consegue manter disponível, modernizar, adaptar e, sempre que possível, nacionalizar, sem transformar sua capacidade operacional em refém de decisões políticas, comerciais ou tecnológicas de terceiros.
A proposta apresentada pela Otokar para o mercado brasileiro contempla o TULPAR em duas configurações, como veículo blindado de combate de infantaria, VBCI, e como carro de combate leve, utilizando um conjunto motopropulsor baseado no motor diesel Caterpillar C13, de 720 cv, associado à transmissão Allison 3040 MX.
A escolha desse conjunto merece atenção estratégica. Tanto o motor quanto a transmissão não estão sujeitos às restrições do regime norte-americano ITAR, circunstância que pode representar uma vantagem para um país que busca ampliar sua autonomia industrial e reduzir vulnerabilidades externas na sustentação de seus sistemas de armas.
Isso não significa independência automática. Um blindado equipado com componentes estrangeiros continua inserido em uma cadeia internacional de suprimentos. Entretanto, retirar uma camada específica de restrições à exportação, à integração e à eventual nacionalização pode ampliar a margem de manobra brasileira. E margem de manobra, no campo estratégico, é um ativo de soberania.
O TULPAR foi concebido com arquitetura modular e diferentes possibilidades de motorização, com opções que podem alcançar aproximadamente 1.100 cv. Essa característica permite adaptar a plataforma às exigências de diferentes clientes, configurações de peso, sistemas de armas e conceitos de emprego.
Para o Brasil, entretanto, modularidade somente possui verdadeiro valor estratégico quando pode ser acompanhada por capacidade industrial. Uma plataforma modular que dependa integralmente do exterior continuará sendo uma plataforma estrangeira, ainda que tecnicamente flexível. A questão fundamental é saber quanto dessa arquitetura poderá ser absorvido pela Base Industrial de Defesa brasileira.
É justamente nessa dimensão que a Engenharia de Soberania e Estratégia amplia a análise convencional. Motor, transmissão, suspensão, blindagem, torre, sensores, sistemas de comunicação, eletrônica embarcada e armamento não devem ser observados como componentes isolados. Eles formam uma arquitetura tecnológica cuja dependência externa precisa ser conhecida, mensurada e, quando estrategicamente viável, reduzida.
Na configuração de VBCI, o TULPAR poderá receber uma torre a ser definida de acordo com os requisitos brasileiros. A plataforma busca combinar proteção, mobilidade e capacidade de apoio direto às tropas embarcadas.
Na configuração de carro de combate leve, entretanto, surge um elemento particularmente interessante: a possibilidade de emprego da torre italiana HITFACT MKII, da Leonardo, equipada com canhão de 120 mm de alma lisa. Essa solução possui uma característica relevante para o Brasil, pois a mesma família de torre equipa o Centauro II 8x8 já incorporado pelo Exército Brasileiro.
A comunalidade não transforma as duas plataformas em sistemas equivalentes. O Centauro II é um veículo sobre rodas, concebido segundo uma lógica operacional própria, enquanto o TULPAR é uma plataforma sobre lagartas, com arquitetura, proteção, mobilidade e emprego distintos.
Ainda assim, a existência de uma família de armamento já conhecida pelo Exército pode produzir efeitos positivos sobre treinamento, familiarização das guarnições, manutenção, gestão de sobressalentes e formação de recursos humanos. A padronização, quando tecnicamente possível e estrategicamente conveniente, pode reduzir custos e diminuir a dispersão logística.
A própria Otokar já demonstrou o TULPAR a delegações brasileiras em diferentes configurações de armamento. A utilização da torre MIZRAK, desenvolvida pela fabricante turca, e a apresentação de configuração equipada com a HITFACT MKII demonstram a flexibilidade da arquitetura.
Essa flexibilidade, porém, precisa ser convertida em capacidade brasileira. A pergunta estratégica não deve ser apenas qual torre oferece o melhor desempenho, mas qual combinação de torre, munição, sensores, sistemas de comando e controle, manutenção e cadeia industrial oferece ao Brasil a maior capacidade de combate com a menor vulnerabilidade externa possível.
É nesse ponto que a disputa entre o TULPAR e o CV90 ganha uma dimensão mais profunda.
O CV90, desenvolvido pela sueca BAE Systems Hägglunds, apresenta uma vantagem que não pode ser ignorada: maturidade operacional. A família possui mais de mil unidades em serviço em diferentes países e acumulou experiência operacional, inclusive em ambiente de guerra na Ucrânia. Trata-se de uma plataforma que deixou há muito tempo o estágio de desenvolvimento experimental e ingressou no domínio da experiência acumulada.
Essa diferença é estratégica.
O TULPAR oferece flexibilidade, modularidade e possibilidades de configuração que podem ser particularmente interessantes para o Brasil. Entretanto, sua ausência de histórico operacional em forças armadas representa um fator de risco que precisa ser corretamente precificado pelo processo decisório brasileiro.
O CV90, por outro lado, oferece aquilo que talvez seja o ativo mais difícil de comprar: experiência.
Uma plataforma empregada em diferentes ambientes operacionais permite observar falhas, limitações, necessidades de manutenção, comportamento em campanha, disponibilidade, desgaste de componentes e dificuldades logísticas que dificilmente podem ser reproduzidas integralmente em testes de campo.
Além disso, o CV90 possui variantes destinadas a diferentes funções, incluindo configurações de veículo de combate de infantaria e versões equipadas com armamento de maior calibre. A existência de uma família operacional consolidada constitui uma vantagem importante na avaliação de risco.
Mas maturidade operacional também não deve ser confundida com soberania.
Um equipamento amplamente empregado internacionalmente pode continuar sendo altamente dependente de componentes estrangeiros, propriedade intelectual externa, cadeias internacionais de fornecimento e autorizações políticas para determinadas modificações. Portanto, o fato de uma plataforma ser comprovada em combate não significa, automaticamente, que ela seja a solução mais adequada aos interesses estratégicos brasileiros.
É exatamente nesse equilíbrio que a Engenharia de Soberania e Estratégia propõe uma mudança de perspectiva.
O Exército Brasileiro não deve escolher apenas o melhor blindado. Deve escolher, dentro dos limites técnicos, orçamentários e diplomáticos, a melhor capacidade blindada soberana que o Brasil consiga construir a partir de uma plataforma estrangeira ou, idealmente, transformar progressivamente em capacidade nacional.
Isso muda completamente os critérios de avaliação.
O desempenho balístico continua sendo fundamental. Mobilidade continua sendo fundamental. Proteção, poder de fogo, sensores, guerra eletrônica, consciência situacional, comando e controle e integração em rede continuam sendo indispensáveis.
Mas passam a ser igualmente importantes a disponibilidade de peças, a liberdade de manutenção, a capacidade de fabricação nacional, a transferência de tecnologia, a propriedade intelectual, a formação de mão de obra especializada, a capacidade de modernização, a produção de munições, a nacionalização de componentes críticos e a possibilidade de evolução do sistema ao longo de seu ciclo de vida.
Em uma guerra prolongada, o melhor blindado não é necessariamente aquele que possui a maior quantidade de tecnologia embarcada no momento da aquisição. É aquele cuja força pode continuar funcionando quando a cadeia internacional de suprimentos estiver sob pressão.
Essa é uma das premissas centrais da Engenharia de Soberania: a capacidade de defesa de uma nação não termina na compra de um sistema de armas; começa na capacidade de sustentá-lo quando a conjuntura deixa de ser favorável.
Para o Brasil, essa questão possui importância ainda maior devido à dimensão continental do território, à extensão das fronteiras terrestres, à necessidade de mobilidade estratégica e à responsabilidade constitucional das Forças Armadas na defesa da soberania nacional.
A aquisição de uma nova família de blindados deveria, portanto, ser utilizada como instrumento de política industrial e tecnológica.
Se o TULPAR vier a ser selecionado, seria necessário discutir desde o início um programa de nacionalização progressiva, envolvendo indústria brasileira, universidades, centros de pesquisa e empresas da Base Industrial de Defesa. O mesmo raciocínio deve ser aplicado caso o vencedor seja o CV90 ou qualquer outra plataforma.
A pergunta decisiva não é simplesmente “qual blindado é melhor?”.
A pergunta estratégica é: qual blindado permitirá ao Brasil construir maior capacidade de decisão, produção, sustentação e evolução tecnológica ao longo das próximas décadas?
Essa é a diferença entre aquisição militar e política de defesa.
O Brasil não pode permanecer indefinidamente como comprador de sistemas completos. Precisa transformar compras estratégicas em degraus de desenvolvimento industrial. Um blindado adquirido hoje pode ser apenas um equipamento importado ou pode representar o núcleo de uma cadeia tecnológica brasileira capaz de produzir componentes, integrar sistemas, desenvolver sensores, fabricar estruturas, dominar processos de materiais, produzir munições, realizar manutenção pesada e, posteriormente, projetar soluções próprias.
É nesse sentido que a escolha entre TULPAR e CV90 deve ser examinada com racionalidade estratégica.
O TULPAR apresenta como atrativos sua arquitetura modular, suas diferentes possibilidades de configuração, a alternativa de motorização Caterpillar C13 de 720 cv com transmissão Allison 3040 MX e a possibilidade de integração da torre HITFACT MKII, já conhecida no contexto brasileiro por sua utilização no Centauro II. Soma-se a isso a característica de seus principais componentes motopropulsores não estarem submetidos ao ITAR.
O CV90 apresenta como principal força sua maturidade, sua ampla utilização internacional e sua experiência operacional acumulada, inclusive em cenário de guerra contemporâneo.
Um oferece uma oportunidade de construção e adaptação. O outro oferece uma plataforma cuja maturidade reduz riscos tecnológicos e operacionais.
A decisão brasileira, portanto, não deve ser emocional, nem baseada exclusivamente na origem do fabricante, no preço de aquisição ou na quantidade de unidades que possam ser entregues inicialmente.
Deve ser uma decisão de Estado.
O Exército Brasileiro precisa avaliar qual solução oferece a melhor combinação entre capacidade de combate, risco tecnológico, disponibilidade, custo de ciclo de vida, liberdade de emprego, autonomia logística, potencial de nacionalização, transferência de tecnologia e capacidade de evolução.
A soberania tecnológica não significa produzir absolutamente tudo dentro das fronteiras nacionais. Significa conhecer as dependências críticas, controlar aquilo que é essencial, preservar alternativas e possuir capacidade suficiente para que nenhuma interrupção externa seja capaz de paralisar uma capacidade militar estratégica.
Esse é o verdadeiro significado da Engenharia de Soberania e Estratégia aplicada ao poder terrestre.
O TULPAR e o CV90 não representam apenas duas plataformas concorrentes. Representam duas oportunidades distintas diante de um mesmo desafio: como transformar uma aquisição de defesa em capacidade nacional permanente.
No horizonte das próximas décadas, o vencedor não será necessariamente o blindado mais moderno, mais pesado ou mais armado. Será aquele que melhor responder à pergunta que realmente importa para uma potência regional com pretensões de autonomia estratégica: quando chegar a hora de sustentar, reparar, modernizar e empregar essa força em uma crise real, quanto dependeremos da decisão de outros países?
A resposta a essa pergunta é, em última análise, uma medida da soberania brasileira.