Exército Brasileiro acelera a incorporação de drones nacionais e fortalece a Base Industrial de Defesa como vetor da soberania tecnológica.
A Evolução dos conflitos contemporâneos demonstra, de forma inequívoca, que os sistemas não tripulados deixaram de representar uma capacidade complementar para se tornarem elementos centrais das operações militares modernas. Os recentes conflitos na Europa Oriental, no Oriente Médio e em outras regiões evidenciam que drones de reconhecimento, ataque e munições remotamente pilotadas modificaram profundamente a forma de conduzir operações terrestres, reduzindo custos, ampliando o alcance tático e aumentando significativamente a capacidade de vigilância e de engajamento de alvos.
Nesse contexto estratégico, a campanha de pré-qualificação de sistemas de drones promovida pelo Exército Brasileiro representa muito mais do que uma simples avaliação técnica de equipamentos. Trata-se de uma iniciativa diretamente vinculada ao fortalecimento da Defesa Nacional, ao desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID) e à construção de uma autonomia tecnológica indispensável para a preservação da soberania brasileira.
Realizada entre os dias 22 de junho e 3 de julho de 2026, sob coordenação da Diretoria de Fabricação, com apoio do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), a campanha estabelece um modelo rigoroso de certificação operacional antes de qualquer futura aquisição. A metodologia adotada demonstra maturidade institucional ao submeter os equipamentos a sucessivas fases de validação, contemplando requisitos de segurança, estabilidade de voo, confiabilidade dos enlaces de comunicação, precisão operacional e eficiência no emprego de munições, inicialmente inertes e posteriormente reais.
O dado mais relevante talvez não seja o número de sistemas apresentados, mas o elevado grau de exigência imposto pelo Exército Brasileiro. Dos 84 sistemas inicialmente inscritos por empresas da Base Industrial de Defesa, apenas 32 foram considerados aptos para a fase prática de avaliações e somente sete haviam sido qualificados até o final de junho, evidenciando que o processo privilegia desempenho operacional comprovado, e não apenas propostas tecnológicas promissoras.
Essa postura revela um aspecto frequentemente negligenciado nas discussões sobre inovação militar: tecnologia sem confiabilidade operacional representa vulnerabilidade, não capacidade militar. Em um cenário de combate, falhas de comunicação, perda de enlace ou instabilidade dos sistemas podem comprometer missões, colocar tropas em risco e produzir efeitos estratégicos indesejados.
Sob esse aspecto, merece destaque a transparência institucional ao registrar que um dos sistemas avaliados apresentou interrupção do enlace de comando durante a fase de demonstração com munição real. Longe de representar um fracasso do programa, esse tipo de ocorrência confirma precisamente a importância do processo de pré-qualificação. Detectar limitações em ambiente controlado é infinitamente menos oneroso — financeira, operacional e estrategicamente — do que identificá-las durante operações reais.
Outro elemento estratégico merece atenção especial: a valorização da Base Industrial de Defesa nacional.
Ao priorizar empresas brasileiras no processo de desenvolvimento tecnológico, o Exército reforça um dos pilares fundamentais da Estratégia Nacional de Defesa: reduzir a dependência externa em tecnologias críticas. Em um ambiente internacional marcado por disputas geopolíticas, restrições de exportação, embargos tecnológicos e crescente competição entre potências, depender exclusivamente de fornecedores estrangeiros para sistemas estratégicos representa um risco inaceitável para qualquer Estado soberano.
A experiência internacional demonstra que países capazes de projetar poder militar sustentável são justamente aqueles que preservam domínio sobre suas tecnologias sensíveis. O fortalecimento da indústria nacional de drones, sensores, sistemas de navegação, inteligência artificial embarcada e comunicações seguras insere o Brasil em uma trajetória consistente de fortalecimento de sua autonomia estratégica.
Nesse sentido, a campanha dialoga diretamente com os objetivos do Projeto Força 40, iniciativa que busca preparar o Exército Brasileiro para os desafios das próximas décadas. A transformação digital da Força Terrestre exige integração entre doutrina, tecnologia, indústria, pesquisa científica e capacitação de recursos humanos, estabelecendo um ecossistema nacional de inovação em Defesa.
Igualmente relevante é o papel desempenhado pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado na Restinga da Marambaia desde 1944. A existência de uma infraestrutura especializada para testes de materiais de emprego militar constitui uma capacidade estratégica pouco conhecida pela sociedade brasileira, mas essencial para garantir que novos sistemas sejam submetidos a avaliações independentes, criteriosas e compatíveis com os elevados padrões exigidos pelas operações militares.
Mais do que testar drones, o Exército Brasileiro demonstra estar consolidando uma cultura institucional de inovação baseada em evidências técnicas, experimentação operacional e permanente interação com a Base Industrial de Defesa. Essa aproximação entre Força Terrestre, centros de pesquisa e indústria nacional cria condições para o desenvolvimento de soluções adaptadas às necessidades específicas do ambiente operacional brasileiro, reduzindo vulnerabilidades decorrentes da importação de tecnologias críticas.
Sob a ótica da Defesa Nacional, essa iniciativa transcende a simples aquisição de equipamentos. Ela representa investimento em soberania tecnológica, fortalecimento da capacidade dissuasória do Estado brasileiro e preparação das Forças Armadas para enfrentar os desafios impostos pela guerra multidomínio, na qual inteligência, autonomia tecnológica e superioridade informacional passam a ser fatores decisivos para o sucesso operacional.
A guerra do século XXI não será vencida apenas pela quantidade de meios disponíveis, mas pela capacidade de integrar tecnologia, indústria, conhecimento e estratégia. Ao investir na avaliação criteriosa de sistemas nacionais de drones e estimular o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa, o Exército Brasileiro sinaliza que compreende essa realidade e busca posicionar o Brasil entre as nações capazes de proteger seus interesses estratégicos com meios próprios.
Por Amadeu Robalinho
Especialista em Engenharia, Infraestrutura Estratégica, Logística, Defesa, Geopolítica e Soberania Nacional.