O Aço Chinês e a Crise da Siderurgia Nacional: um Desafio à Soberania Industrial Brasileira
Por Amadeu Robalinho
A Indústria siderúrgica brasileira atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente. O crescimento das importações de aço provenientes da China, muitas vezes comercializado a preços inferiores aos praticados no mercado internacional, tem provocado uma forte pressão sobre as empresas nacionais, reduzindo margens de lucro, comprometendo investimentos e colocando em risco milhares de empregos diretos e indiretos.
O Fenômeno é frequentemente associado à prática de "dumping", caracterizada pela exportação de produtos abaixo do custo de produção ou por preços artificialmente reduzidos, em razão de elevados subsídios governamentais, excesso de capacidade produtiva ou políticas industriais agressivas. Para países com forte capacidade industrial, como a China, essa estratégia amplia mercados consumidores, mas cria graves dificuldades para concorrentes que operam em condições normais de mercado.
No Brasil, empresas como a Gerdau, a CSN e a Usiminas vêm alertando que o aumento das importações de aço chinês tem provocado perda de competitividade, redução da utilização da capacidade instalada e adiamento de novos investimentos. Algumas unidades industriais tiveram suas operações reduzidas ou suspensas, enquanto projetos de expansão foram postergados diante da incerteza do mercado.
Segundo declarações recentes do CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, a empresa aguarda que o Governo Federal adote medidas antidumping e de defesa comercial nos próximos meses. A expectativa é que essas medidas restabeleçam condições mais equilibradas de concorrência, permitindo a retomada de investimentos e a reativação de algumas plantas industriais atualmente paralisadas. Até o momento, contudo, a unidade da empresa localizada no bairro do Curado, em Jaboatão dos Guararapes (PE), ainda não foi incluída entre as possíveis beneficiadas.
Os impactos vão muito além das empresas siderúrgicas. A siderurgia constitui a base de praticamente toda a cadeia industrial brasileira. Construção civil, indústria naval, setor automotivo, ferroviário, petróleo e gás, energia, mineração, máquinas e equipamentos, indústria de defesa e infraestrutura dependem diretamente da produção nacional de aço.
Sob a perspectiva estratégica, a perda de capacidade siderúrgica representa um risco para a soberania nacional. Nenhuma grande potência industrial mantém sua autonomia tecnológica e militar sem uma base siderúrgica sólida. O aço é um insumo essencial para a fabricação de navios, submarinos, blindados, aeronaves, pontes, plataformas offshore, linhas de transmissão, usinas e equipamentos industriais.
Caso o Brasil amplie sua dependência do aço importado, especialmente de um único fornecedor externo, poderá enfrentar vulnerabilidades significativas em momentos de crises internacionais, conflitos geopolíticos ou interrupções das cadeias globais de suprimentos. A pandemia da COVID-19 demonstrou como a excessiva dependência externa pode comprometer a segurança econômica de um país.
Além disso, a retração da siderurgia implica perda de arrecadação tributária, fechamento de postos de trabalho altamente qualificados, redução da produção industrial e enfraquecimento do desenvolvimento tecnológico nacional. Cada usina fechada representa também a perda de conhecimento técnico, de capacidade produtiva e de investimentos realizados ao longo de décadas.
Por outro lado, é importante reconhecer que a utilização de medidas antidumping deve observar as regras internacionais do comércio e ser fundamentada em investigações técnicas que comprovem práticas desleais. O objetivo dessas medidas não é impedir a concorrência internacional, mas assegurar condições equitativas para produtores nacionais e estrangeiros.
Nesse contexto, torna-se imprescindível que o Brasil fortaleça sua política industrial, amplie os mecanismos de defesa comercial quando cabíveis, estimule a inovação tecnológica e preserve setores considerados estratégicos para o desenvolvimento econômico e para a segurança nacional.
A defesa da siderurgia brasileira transcende o interesse empresarial. Trata-se da preservação de uma indústria estruturante, responsável por sustentar grande parte da capacidade produtiva do país. Manter uma base siderúrgica competitiva significa proteger empregos, garantir autonomia tecnológica, fortalecer a indústria de defesa e assegurar que o Brasil continue dispondo de um dos principais pilares de sua soberania econômica e estratégica.