Comandos: da guerra irregular à engenharia da soberania
A história dos Comandos começa antes que o nome fosse incorporado definitivamente ao vocabulário militar britânico. Ela nasce de uma experiência de guerra assimétrica, mobilidade, iniciativa e conhecimento do terreno, amadurecida nas guerras da África Austral e posteriormente reinterpretada pela Grã-Bretanha em um dos momentos mais críticos de sua história estratégica.
A palavra “commando” não surgiu em 1940. O registro histórico do termo em inglês remonta ao final do século XVIII, associado às forças montadas bôeres da África do Sul. O Dictionary of South African English registra, já em 1790, o emprego de commando para designar uma força armada, normalmente montada, reunida para operações de incursão, represália ou recuperação de gado. A origem linguística é atribuída ao africâner commando/kommando, relacionado ao português comando. A associação direta com uma suposta palavra significando “invasão”, entretanto, é simplificação. Historicamente, o conceito estava muito mais ligado a uma força convocada sob determinado comando e à autorização para realizar uma expedição armada.
Essa distinção é importante porque revela algo maior do que a simples etimologia. O commando original não era, necessariamente, uma “tropa de elite” no sentido contemporâneo. Era uma forma de organização militar adaptada a um ambiente em que mobilidade, autonomia, iniciativa individual, conhecimento do terreno e capacidade de concentração e dispersão podiam produzir efeitos desproporcionais à massa de forças empregada.
Nas Guerras dos Bôeres, particularmente na Segunda Guerra Anglo-Boer, entre 1899 e 1902, os britânicos encontraram exatamente esse problema. Depois das grandes operações convencionais, as forças bôeres passaram a operar em grupos móveis, explorando a vastidão do território sul-africano, a superioridade na mobilidade montada e a capacidade de atacar linhas de comunicação, colunas e posições vulneráveis. O próprio National Army Museum registra que as forças bôeres eram altamente móveis, habilidosas no emprego do terreno e capazes de evitar confrontos convencionais, obrigando o Exército britânico a modificar suas próprias estruturas e métodos de campanha.
Há, entretanto, uma dimensão histórica que não deve ser apagada pela romantização posterior do termo. Os commandos também participaram de campanhas coloniais contra populações africanas, e as fontes históricas registram o emprego dessas forças em expedições de represália e conquista. A evolução posterior do conceito militar não transforma automaticamente toda a história dos commandos em um modelo exclusivamente virtuoso. O que interessa estrategicamente é compreender quais características operacionais foram posteriormente identificadas, estudadas e reaproveitadas por outras forças armadas.
E foi justamente essa experiência que atravessou o tempo e voltou à superfície em 1940.
A queda da França e a evacuação de Dunquerque produziram uma ruptura na lógica estratégica britânica. A Grã-Bretanha encontrava-se diante da possibilidade de invasão e, ao mesmo tempo, precisava encontrar uma maneira de recuperar a iniciativa contra uma Alemanha que havia conquistado grande parte da Europa Ocidental.
Nesse ambiente surgiu o Tenente-Coronel Dudley Clarke, oficial britânico nascido na África do Sul e então integrante do Estado-Maior do General Sir John Dill, Chefe do Estado-Maior Imperial. Clarke conhecia a experiência dos Boer Commandos e havia acumulado também experiência com guerra irregular durante a Revolta Árabe na Palestina. Em junho de 1940, apresentou a Dill a proposta de criação de uma força pequena, móvel e especialmente treinada para operações ofensivas e incursões contra o território ocupado pelo inimigo.
A concepção de Clarke encontrou terreno fértil porque coincidia com uma preocupação que Winston Churchill já manifestava naquele momento. Nas conclusões do War Cabinet de 17 de junho de 1940, documento oficial britânico catalogado como CAB 65/7, o governo discutiu a necessidade de introduzir um elemento de Storm Troops no Exército, inspirado na capacidade ofensiva demonstrada pelas tropas alemãs.
No dia seguinte, 18 de junho de 1940, Churchill encaminhou a Hastings Ismay uma minuta perguntando sobre a possibilidade de criação de tropas de choque. O documento histórico registra sua defesa de pelo menos 20 mil homens especialmente preparados, extraídos das unidades existentes, equipados com armamento moderno e dotados de elevada mobilidade. Churchill escreveu que deveriam estar preparados para “spring at the throat” de pequenos desembarques ou incursões inimigas.
A convergência entre a necessidade estratégica identificada por Churchill e a solução operacional proposta por Clarke produziu algo que ultrapassaria a Segunda Guerra Mundial.
O objetivo não era simplesmente criar soldados mais agressivos. Era criar uma capacidade estratégica diferente.
Essa diferença aparece com clareza no memorando do Major-General R. H. Dewing, de 13 de junho de 1940, que estabelecia a concepção inicial dos Commandos. A ideia era reunir homens capazes de combater de maneira independente e irregular, sem depender da estrutura rígida de uma unidade convencional. Armamento, equipamento e composição poderiam variar conforme a missão. A força deveria ser organizada em função do problema operacional, e não o problema obrigado a se adaptar a uma estrutura permanente.
Aqui está, talvez, a principal lição estratégica da origem dos Comandos.
A força deveria nascer da missão, e não a missão nascer das limitações da força.
Essa inversão parece simples, mas possui enorme significado para a engenharia da Defesa. Em ambientes de elevada incerteza, soberania não depende apenas da quantidade de meios disponíveis. Depende também da capacidade de transformar meios em opções estratégicas.
Uma força convencional pode possuir massa, fogo e permanência. Uma força de operações especiais acrescenta outras dimensões: surpresa, velocidade, precisão, autonomia, infiltração, reconhecimento, ação direta e capacidade de produzir efeitos em profundidade.
É a combinação dessas capacidades que transforma uma pequena unidade em instrumento estratégico.
Em 1940, essa lógica era particularmente importante para uma Grã-Bretanha que precisava demonstrar ao adversário que a perda da iniciativa continental não significava perda da capacidade de reação. Os primeiros ataques foram modestos e nem sempre bem-sucedidos. O primeiro ataque através do Canal, a Operação Collar, ocorreu em junho de 1940 e demonstrou que transformar conceito em capacidade operacional exigiria treinamento, equipamentos, comando e integração entre Exército, Marinha e Força Aérea.
Com o tempo, porém, os Comandos deixaram de ser apenas uma resposta emergencial à crise de 1940 e passaram a constituir uma ferramenta permanente da estratégia britânica. O National Army Museum registra que essas forças foram concebidas inicialmente como unidades de incursão e reconhecimento, mas evoluíram para tropas de assalto empregadas em operações cada vez mais complexas ao longo da Segunda Guerra Mundial.
É nesse ponto que a história dos Comandos deixa de ser apenas história militar e passa a interessar diretamente à discussão sobre Soberania Nacional.
Uma nação soberana precisa possuir capacidade de negar ao adversário a liberdade de ação sobre seus interesses vitais. Isso não significa possuir apenas grandes Exércitos, grandes Marinhas ou grandes Forças Aéreas. Significa possuir diferentes instrumentos para diferentes níveis de ameaça.
A experiência britânica demonstrou que uma estrutura de Defesa robusta precisa combinar massa e especialização, dissuasão e ação, capacidade convencional e capacidade de operações especiais.
No caso brasileiro, essa lógica encontra correspondência em estruturas próprias das três Forças. O Exército Brasileiro possui o 1º Batalhão de Ações de Comandos, inserido no sistema de Operações Especiais; a Marinha mantém a formação de seus Comandos Anfíbios; e a Força Aérea Brasileira possui o Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento, o PARA-SAR, cuja história combina busca e salvamento, operações especiais e capacidades aeroterrestres.
A própria doutrina brasileira evidencia essa diferenciação. Publicação profissional do Exército descreve o 1º BAC como unidade especializada em ações diretas, enquanto as Forças Especiais possuem atribuições distintas dentro do espectro das Operações Especiais. Não se trata, portanto, simplesmente de “tropa de elite”, mas de capacidades diferentes dentro de uma arquitetura maior de emprego militar.
O mesmo princípio aparece na formação contemporânea dos Comandos Anfíbios. Em 2026, o Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo descreveu o Curso Especial de Comandos Anfíbios como uma formação destinada a capacitar oficiais e praças para o planejamento e execução de Operações Especiais de Fuzileiros Navais, envolvendo combate, natação, armamento, comunicações, primeiros socorros e técnicas de patrulha.
E o PARA-SAR demonstra outra dimensão da mesma arquitetura, combinando busca e salvamento em combate, infiltração, exfiltração e operações especiais. Sua própria história oficial remonta à criação da primeira Esquadrilha Aeroterrestre de Salvamento, em 1963.
Portanto, quando se observa a trajetória que vai dos Boer Commandos aos Comandos britânicos de 1940 e destes às modernas forças de operações especiais, não se está diante apenas da evolução de uma palavra.
Estamos diante da evolução de uma ideia estratégica.
A ideia de que uma força militar não precisa ser grande para produzir efeitos estratégicos, mas precisa ser capaz de chegar onde o adversário não espera, agir sobre aquilo que ele considera protegido, produzir efeitos desproporcionais aos recursos empregados e, principalmente, devolver ao Estado a iniciativa perdida.
Essa é uma das grandes lições de 1940.
Dudley Clarke não inventou a guerra irregular. Churchill não inventou as tropas de choque. Os britânicos não inventaram a mobilidade militar. O que fizeram foi algo mais importante: transformaram experiências históricas dispersas em capacidade institucional organizada.
E é justamente aí que reside a dimensão contemporânea da soberania.
Países soberanos não são aqueles que simplesmente possuem armas. São aqueles capazes de organizar conhecimento, tecnologia, doutrina, indústria, inteligência, infraestrutura, recursos humanos e capacidade operacional em um sistema coerente de Defesa.
O Commando nasceu como resposta a uma assimetria.
Transformou-se em doutrina.
A doutrina tornou-se capacidade.
E a capacidade tornou-se instrumento de estratégia.
Essa trajetória demonstra uma verdade que permanece atual no século XXI: quando a guerra muda, a soberania exige que o Estado também seja capaz de mudar a forma pela qual emprega seu poder.
A história dos Comandos, portanto, não é apenas a história de homens treinados para combater atrás das linhas inimigas.
É a história de como uma nação, diante da perda da iniciativa estratégica, procurou reconstruí-la por meio da inovação organizacional.
E, na guerra como na soberania, muitas vezes a diferença entre possuir poder e exercer poder está exatamente aí: na capacidade de transformar recursos em efeitos estratégicos.