DEVGRU: quando uma falha operacional se transforma em capacidade estratégica
Por Amadeu Robalinho
Há momentos na história militar em que uma operação fracassada produz consequências maiores do que muitas missões consideradas vitoriosas. A tentativa norte-americana de resgatar os reféns mantidos na Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em 24 de abril de 1980, é um desses episódios. A Operação Eagle Claw terminou antes que os reféns fossem libertados, após problemas operacionais, condições ambientais adversas e a colisão entre um helicóptero e uma aeronave C-130 durante a retirada, acidente que provocou a morte de oito militares norte-americanos.
Mas a história da Eagle Claw não termina no deserto iraniano.
Ela inaugura uma importante reflexão sobre a relação entre fracasso operacional, aprendizado institucional, tecnologia, comando e soberania.
A imagem do DEVGRU, conhecida publicamente como uma das unidades mais reservadas das forças especiais navais norte-americanas, representa justamente uma concepção de Defesa na qual uma operação não termina quando seus homens retornam à base. Ela continua nos centros de treinamento, nos laboratórios, nos processos de avaliação, na inteligência, na doutrina, nos equipamentos e, principalmente, na capacidade do Estado de transformar experiências em conhecimento operacional.
A própria documentação histórica da Marinha norte-americana registra que, após a Eagle Claw, houve uma ampla revisão do planejamento, da organização, da coordenação, da direção e do controle das operações especiais.
Esse ponto é fundamental.
Uma nação tecnologicamente soberana não é aquela que simplesmente possui equipamentos modernos. É aquela que consegue transformar conhecimento, experiência operacional, ciência, engenharia e inteligência em capacidade autônoma de ação.
É aí que Defesa e tecnologia deixam de ser assuntos separados.
O desenvolvimento das forças de operações especiais norte-americanas ocorreu dentro de um processo mais amplo de evolução da guerra conjunta. A criação do U.S. Special Operations Command, posteriormente estruturado como comando unificado para as operações especiais, esteve diretamente relacionada às lições extraídas de problemas de coordenação revelados pela Eagle Claw e por operações posteriores.
O caso é particularmente interessante porque demonstra que tecnologia militar não significa apenas armas.
Tecnologia também é comando e controle.
É comunicação segura.
É interoperabilidade.
É inteligência.
É mobilidade.
É capacidade de infiltração e extração.
É consciência situacional.
É treinamento.
É logística.
É engenharia.
É capacidade industrial.
E, acima de tudo, é a integração de todas essas dimensões em um sistema nacional de Defesa.
A Naval Special Warfare norte-americana define sua missão contemporânea como o fornecimento de capacidades de operações especiais marítimas para atuação em ambientes negados ou contestados, apoiando objetivos nacionais. Sua estrutura atual inclui o Naval Special Warfare Development Group, DEVGRU, dentro da arquitetura da Naval Special Warfare.
Isso revela uma característica importante do poder militar contemporâneo: as forças de elite são apenas a ponta visível de uma estrutura muito maior.
Por trás de um operador existe uma cadeia tecnológica, científica, industrial e institucional.
Existe uma indústria produzindo sensores, comunicações, aeronaves, embarcações, sistemas optrônicos, equipamentos de proteção, softwares, sistemas de navegação e inteligência.
Existe uma estrutura acadêmica pesquisando novos materiais, energia, computação, inteligência artificial, robótica e sistemas autônomos.
Existe uma estrutura de Estado capaz de financiar, testar, incorporar e atualizar essas tecnologias.
E existe uma doutrina responsável por transformar tudo isso em capacidade militar.
É nesse ponto que a discussão sobre DEVGRU ultrapassa o fascínio pelas operações especiais.
O verdadeiro ensinamento estratégico está na engenharia da capacidade nacional.
A experiência norte-americana mostra que uma falha operacional pode ser transformada em conhecimento. E conhecimento, quando convertido por instituições em doutrina, tecnologia e organização, transforma-se em poder.
Para países que pretendem preservar sua autonomia estratégica, essa é uma questão central.
Não basta adquirir equipamentos estrangeiros.
Não basta importar sistemas sofisticados.
Não basta formar operadores altamente especializados.
É necessário dominar, progressivamente, as tecnologias críticas que sustentam essas capacidades.
Soberania, no século XXI, passa também pelo domínio daquilo que permite ao Estado operar quando as condições são adversas, quando as comunicações são degradadas, quando o ambiente é contestado e quando a dependência tecnológica externa pode transformar uma vulnerabilidade técnica em vulnerabilidade estratégica.
Essa é uma das grandes fronteiras da Defesa Nacional.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas qual é a unidade militar mais preparada, qual equipamento é mais avançado ou qual força especial possui maior capacidade operacional.
A pergunta estratégica é outra:
o Estado possui conhecimento, tecnologia, indústria, infraestrutura, inteligência e recursos humanos suficientes para produzir autonomamente as capacidades de que necessita quando a situação exigir?
Essa é a diferença entre possuir meios de Defesa e possuir capacidade estratégica de Defesa.
O DEVGRU é apenas uma expressão dessa equação.
A verdadeira lição está atrás dele.
Está na capacidade de aprender.
De pesquisar.
De desenvolver.
De integrar.
De testar.
De corrigir.
De produzir.
E de transformar experiência operacional em tecnologia nacional.
Porque, no ambiente estratégico contemporâneo, a soberania começa muito antes do campo de batalha.
Ela começa no laboratório, na universidade, na indústria, no centro de pesquisa, na engenharia, na inteligência e na capacidade do Estado de transformar conhecimento em poder nacional.
A ponta da lança só existe porque existe uma estrutura inteira sustentando-a.
E essa talvez seja a principal lição estratégica que a história do DEVGRU oferece ao Brasil.
Não devemos simplesmente perguntar como outras nações construíram suas forças de elite.
Devemos perguntar como construíram a base científica, tecnológica, industrial e institucional que tornou essas forças possíveis.
Essa é uma discussão sobre Defesa.
Mas, sobretudo, é uma discussão sobre Soberania Nacional.
Fontes históricas: U.S. Naval History and Heritage Command e Naval Special Warfare Command.