O MÍNIMO COMO MANDATO: UMA REFLEXÃO ÀS VÉSPERAS DAS ELEIÇÕES GERAIS DE 2026
Por Amadeu Robalinho
Enquanto a política vender sobrevivência como conquista, o povo vai agradecer pelo mínimo em vez de cobrar pelo máximo.
A frase acima pode parecer, à primeira vista, apenas uma provocação política. Mas ela encerra uma questão muito mais profunda sobre a relação entre Estado, sociedade e cidadania.
Nas eleições gerais de 4 de outubro de 2026, o Brasil escolherá presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais. Não se trata, portanto, de uma eleição limitada à administração cotidiana das cidades. O que estará em disputa é a direção política, econômica, institucional e estratégica do País para os próximos anos.
É nesse contexto que precisamos discutir uma questão que ultrapassa governos e partidos: qual é o tamanho daquilo que o cidadão brasileiro deve exigir do Estado?
Quando o voto encolhe o horizonte.
Eleger um presidente, governador, senador ou deputado não significa simplesmente escolher quem entregará uma obra, concederá um benefício ou anunciará uma medida emergencial.
Significa escolher representantes que participarão de decisões capazes de afetar a estrutura tributária, o orçamento público, a educação, a saúde, a segurança, a infraestrutura, a política industrial, a energia, a defesa nacional, a ciência, a tecnologia e a própria capacidade estratégica do Estado brasileiro.
Quando o eleitor é levado a avaliar um governo exclusivamente pelo benefício imediato que recebeu, existe o risco de reduzir a dimensão do mandato político.
O benefício emergencial pode ser necessário. A transferência de renda pode ser necessária. A obra pública pode ser necessária. O atendimento de uma necessidade imediata pode ser indispensável.
Mas nenhuma dessas ações deveria representar o limite da ambição nacional.
O Estado não pode transformar a superação da emergência em substituto para a construção de um futuro.
Uma sociedade que passa a considerar excepcional aquilo que deveria ser básico corre o risco de inverter sua própria escala de prioridades. O cidadão deixa de perguntar quanto o Estado pode construir e passa a agradecer simplesmente porque alguma coisa foi entregue.
É nesse ponto que o mínimo pode transformar-se em mandato.
A Política da Escassez.
Existe uma dinâmica política que pode surgir quando a precariedade se torna normalizada.
Primeiro, problemas estruturais permanecem durante décadas. Depois, governos apresentam medidas pontuais para amenizar suas consequências. Em seguida, essas medidas são transformadas em símbolos de realização administrativa. Finalmente, aquilo que deveria ser apenas uma etapa da política pública passa a ser apresentado como conquista extraordinária.
O problema não está necessariamente na existência dessas políticas. Muitas delas são legítimas e indispensáveis.
O problema aparece quando a emergência passa a substituir a estratégia.
Uma nação não pode estabelecer como horizonte permanente apenas a redução da pobreza, sem discutir a geração de riqueza. Não pode limitar sua política industrial à manutenção de estruturas existentes, sem buscar autonomia tecnológica. Não pode tratar infraestrutura como simples reparação de danos, quando deveria concebê-la como instrumento de desenvolvimento e soberania.
Da mesma forma, não pode discutir segurança pública apenas depois que a violência se instala, nem discutir energia somente quando surge uma crise de abastecimento.
O Estado estratégico trabalha antes da crise.
O Brasil tem de começar a pensar grande.
As Eleições gerais de 2026 deveriam ser também uma oportunidade para discutir qual projeto de País pretendemos construir.
Que política industrial será adotada?
Qual será o papel da ciência e da tecnologia no desenvolvimento nacional?
Como o Brasil pretende ampliar sua infraestrutura crítica?
Qual será o futuro da matriz energética?
Como proteger ativos estratégicos, sistemas de comunicação, redes de energia, portos, ferrovias, sistemas de abastecimento e cabos submarinos?
Qual será o nível de investimento em defesa nacional?
Como enfrentar organizações criminosas que ultrapassam fronteiras estaduais e assumem características cada vez mais complexas?
Como transformar educação em capacidade produtiva, tecnológica e científica?
Essas perguntas não pertencem a um único governo ou a um único partido. Pertencem ao Estado brasileiro.
E é justamente por isso que o debate eleitoral não deveria se limitar à disputa entre nomes.
Soberania também é ter sabedoria e liberdade para escolher.
Não existe soberania plena quando uma nação não possui capacidade suficiente para produzir, proteger, pesquisar, inovar e decidir.
Soberania não é apenas possuir território.
É possuir capacidade energética.
É possuir infraestrutura.
É possuir indústria.
É possuir conhecimento científico.
É dominar tecnologias críticas.
É proteger suas comunicações.
É garantir segurança à população.
É possuir capacidade de defesa.
É conseguir tomar decisões estratégicas sem depender permanentemente de capacidades externas.
Por isso, a discussão sobre desenvolvimento não pode ser separada da discussão sobre soberania.
Um País que apenas administra suas carências pode sobreviver.
Um País que desenvolve capacidades estratégicas pode transformar sua realidade.
O Voto é um contrato de administação.
O voto não deveria ser entendido apenas como uma escolha de pessoas.
É também uma escolha sobre prioridades.
O Eleitor pode perguntar ao candidato quanto será destinado a determinada política pública, mas também precisa perguntar qual problema estrutural aquela política pretende resolver.
Pode perguntar quanto será investido, mas também deve perguntar qual capacidade nacional será construída.
Pode perguntar qual benefício será entregue, mas também deve perguntar qual será o resultado daqui a dez ou vinte anos.
Essa mudança de perspectiva é fundamental.
Porque uma nação não se constrói apenas com respostas para as emergências do presente. Constrói-se com planejamento, conhecimento, infraestrutura, tecnologia, educação, energia, segurança e capacidade estratégica.
Não se trata de pedir menos. Trata-se de exigir mais.
A grande questão das eleições gerais de 2026 não deveria ser apenas quem promete entregar mais benefícios.
Deveria ser também qual projeto de Estado pretende construir capacidades permanentes.
O Cidadão brasileiro não deve ser tratado apenas como beneficiário de políticas públicas. É titular de direitos e integrante de uma sociedade que financia o Estado e possui o direito de exigir resultados.
O mínimo pode ser necessário para garantir dignidade.
Mas o mínimo não pode ser transformado em teto de expectativa nacional.
Uma democracia madura não deve ensinar o cidadão a agradecer indefinidamente pela sobrevivência. Deve criar condições para que ele possa exigir desenvolvimento, segurança, educação, saúde, infraestrutura, oportunidades e prosperidade.
O Brasil possui território, população, recursos naturais, capacidade científica, indústria, universidades, forças de segurança, Forças Armadas e uma posição geopolítica singular.
A questão fundamental é transformar esses ativos em capacidade nacional.
É nesse ponto que o debate eleitoral precisa alcançar uma dimensão maior.
Não se trata apenas de escolher quem administrará o Estado.
Trata-se de decidir qual Estado queremos construir.
Porque uma nação que aceita o mínimo como destino corre o risco de transformar a exceção em regra.
E uma nação que compreende sua própria capacidade pode começar a exigir do Estado não apenas a administração da escassez, mas a construção das condições necessárias para a abundância, o desenvolvimento e a soberania.
Em outubro de 2026, o Brasil escolherá seus representantes.
Mas, muito além disso, terá a oportunidade de decidir qual será o tamanho de sua própria ambição nacional.